Jogada10
·04 de abril de 2025
Acusação de fraude promove racha familiar e marca julgamento da morte de Maradona

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·04 de abril de 2025
O julgamento que investiga as circunstâncias da morte de Diego Armando Maradona, ocorrida em 25 de novembro de 2020, tem revelado, além de aspectos médicos e jurídicos, uma intensa disputa familiar que vai além da esfera penal. Embora a audiência em curso, realizada em San Isidro, na Argentina, trate da suposta negligência médica, paralelamente se desenrola um embate em torno dos direitos comerciais sobre o nome do ex-jogador.
Durante os depoimentos, o advogado Fernando Burlando, que representa as filhas Dalma e Gianinna, e Eduardo Ramírez, defensor de Diego Armando Junior, expuseram o cerne do conflito: a utilização da marca “Maradona” pela empresa Sattvica S.A., presidida por Rita Maradona, irmã do ídolo. Trata-se de uma empresa acusada de se beneficiar de um contrato considerado fraudulento pelos filhos do ex-camisa 10 da Argentina.
A audiência ficou marcada por depoimentos carregados de emoção e tensão. Claudia Maradona, irmã mais nova de Diego, descreveu a internação domiciliar após a cirurgia de hematoma subdural em 2020. “Todos estavam propondo a internação domiciliar”, contou ela. Claudia mencionou, ainda, que não recordava quem havia sugerido a medida, embora tenha confirmado que houve um consenso entre os envolvidos.
Claudia também foi questionada sobre a relação com o uso da marca. “Algo que ele deixou para nós, irmãs. Em vida, ele nos deu presentes. Mais tarde, ele deixou sua marca em nós”, declarou. Quando pressionada a explicar em que base legal esse repasse teria ocorrido, afirmou: “Na vida, ele disse isso a todas nós, irmãs, com sua própria voz”.
Posteriormente, a irmã mais velha, Ana, reforçou a alegação de que as filhas de Diego tomaram as decisões sobre a internação em casa. “Ele estava reclamando. Então perguntei se ele estava com dor, e ele respondeu: ‘Sim, na alma’”, relatou, visivelmente emocionada. Ela também afirmou que esperava que as filhas cuidassem bem do pai.
Já Rita Maradona, presidente da empresa em disputa, reconheceu que recebe benefícios financeiros pela posição. Questionada sobre o valor e a origem dos pagamentos, preferiu não responder. No entanto, ao relembrar uma conversa com Dalma, citou: “Vocês não têm nada a ver com isso. Somos três mulheres adultas e vamos cuidar da saúde do meu pai”.
Assim sendo, o julgamento que visa esclarecer responsabilidades sobre a morte de Maradona também escancara a profunda divisão familiar e a luta por um legado que ultrapassa o campo esportivo. Afinal, o nome Maradona carrega um valor simbólico e econômico de proporções globais, e atualmente é objeto de litígio entre aqueles que conviveram de perto com o ídolo.
Julgamento da morte do ídolo argentino – Foto: Reprodução
Durante a quarta semana do julgamento, um perito bioquímico afirmou que não havia vestígios de álcool ou drogas ilícitas no organismo do ex-jogador. Segundo Ezequiel Ventosi, responsável pela análise das amostras de sangue, urina e saliva do ídolo argentino, os exames não indicaram presença de cocaína, maconha, MDMA, êxtase ou anfetaminas.
Ainda assim, foram detectadas cinco substâncias ligadas a medicamentos antidepressivos, anticonvulsivantes, antipsicóticos e para controle de náuseas. A causa da morte, segundo laudos anteriores, foi um edema pulmonar decorrente de insuficiência cardíaca. O astro estava em recuperação domiciliar após passar por uma neurocirurgia em novembro de 2020.
Na mesma audiência, o tribunal leu o depoimento do médico Alfredo Cahe, que atendeu o ex-jogador entre 1978 e 2009 e faleceu em 2024. Segundo o relato, Cahe ficou alarmado com a condição do ídolo durante uma visita à Clínica Olivos, classificando a internação domiciliar como inadequada.
Outros especialistas também prestaram depoimento, incluindo a anatomopatologista Silvana de Piero. Ela destacou que o fígado do ex-atleta apresentava sinais de cirrose e que seus rins e pulmões estavam comprometidos. O coração também indicava falta de oxigenação.
Atualmente, sete profissionais de saúde — entre médicos, enfermeiros, uma psiquiatra e um psicólogo — estão sendo julgados por homicídio com dolo eventual, acusação que implica conhecimento prévio do risco de morte. O processo, iniciado em 11 de março, deve se estender até julho. Uma oitava acusada será julgada separadamente.